A sua visão explicada

O que é a miopia, a hipermetropia, o astigmatismo e a presbiopia. O que se sente em cada uma, o que se passa dentro do olho, e o que há para corrigir.

A visão explicada

Como funciona o olho

A luz entra pela córnea, a janela transparente à frente do olho, que faz a maior parte do trabalho de a refractar. Atravessa a pupila — o buraco no meio da íris, que abre e fecha conforme a claridade — e chega ao cristalino, uma lente que muda de forma para afinar a focagem consoante a distância.

No fim, a imagem tem de convergir exactamente na retina, o tecido sensível que forra o fundo do olho, e sobretudo na mácula, a pequena zona central onde a visão é nítida. Dali segue pelo nervo óptico até ao cérebro, que a endireita — porque chega invertida.

Quando a imagem converge antes da retina, depois dela, ou espalhada em vez de num ponto só, chama-se a isso um erro refractivo. São os quatro que se seguem. Não são doenças: são olhos com uma geometria diferente, e corrigem-se.

Um olho sem erro refractivo: os raios que entram paralelos juntam-se exactamente na retina.

Miopia

A imagem forma-se à frente da retina e chega lá já aberta.
O que se sente
  • Ao longe está tudo esbatido — o quadro, os sinais de trânsito, as legendas
  • Ao perto vê-se perfeitamente, e às vezes melhor do que os outros
  • Semicerrar os olhos ajuda, e faz-se sem dar por isso
  • Nas crianças: aproximar-se do ecrã, do livro, do quadro

O olho é ligeiramente mais comprido do que devia, ou a córnea curva de mais. O resultado é o mesmo: a luz junta-se antes de chegar à retina e, quando lá chega, já voltou a abrir. Quanto maior a distância entre esse ponto e a retina, maior a miopia.

Aparece quase sempre na idade escolar e tende a agravar-se enquanto o olho cresce, estabilizando por volta dos vinte. Há uma componente hereditária forte.

Como se corrige

Com uma lente divergente, que atrasa o ponto de encontro da luz até ele calhar na retina. Em óculos ou em lentes de contacto: a escolha é de conforto e de hábitos, não de graduação.

Faça o teste de acuidade ao longe para ter uma ideia de como está — leva dois minutos e nada sai do seu dispositivo.

Nas crianças e adolescentes há hoje lentes de controlo de miopia, desenhadas para travar a progressão em vez de apenas corrigir o que já existe. Fazemos esse acompanhamento na loja, e vale a pena falar nele cedo: o que se trava aos oito anos não se recupera aos dezoito.

Hipermetropia

A imagem só se juntaria atrás da retina. O olho compensa com esforço.
O que se sente
  • Cansaço nos olhos ao fim do dia, sobretudo depois de ler ou de ecrã
  • Dores de cabeça ao estudar ou a trabalhar de perto
  • Ao longe costuma estar bem, o que engana
  • Nas crianças: fugir da leitura, perder a linha, cansar-se depressa

Aqui o olho é mais curto do que devia, e a luz ainda vinha a caminho de se juntar quando bate na retina. A diferença em relação à miopia é que o olho consegue disfarçar: o cristalino aperta e traz a imagem para o sítio certo.

Por isso a hipermetropia ligeira passa despercebida durante anos. O que se nota não é a visão desfocada, é o preço desse esforço — a dor de cabeça, o cansaço, a vontade de fechar os olhos ao fim da tarde. E a partir dos quarenta, quando o cristalino perde elasticidade, deixa de haver disfarce.

Como se corrige

Com uma lente convergente, que faz o trabalho que o olho andava a fazer à força. Em óculos ou em lentes de contacto. Nas crianças, corrigir a tempo importa mais do que parece: um esforço permanente de focagem pode estar por trás de dificuldades de leitura que ninguém associou aos olhos.

O teste de acuidade ao perto é o que mais depressa levanta a suspeita.

Astigmatismo

A córnea vista de frente. Curvando mais num sentido do que no outro, a luz não se junta num ponto só.
O que se sente
  • Contornos sujos a qualquer distância, ao perto e ao longe
  • À noite, luzes com raios ou halos à volta — faróis, candeeiros, semáforos
  • Inclinar a cabeça ou apertar os olhos para "limpar" a imagem
  • Dores de cabeça e cansaço, sobretudo se vier acompanhado de miopia

Uma córnea sem astigmatismo é como uma bola: curva o mesmo em todas as direcções. Uma córnea com astigmatismo é mais como a parte de trás de uma colher — curva mais num sentido do que no outro. A luz que entra por um desses sentidos junta-se num sítio, a que entra pelo outro junta-se noutro, e nunca há um ponto onde tudo esteja nítido.

É por isso que o astigmatismo desfoca ao perto e ao longe, e que quem o tem raramente encontra a distância boa. Costuma vir acompanhado de miopia ou de hipermetropia, e muda pouco ao longo da vida.

Como se corrige

Com uma lente tórica, que tem curvaturas diferentes conforme o eixo e compensa exactamente ao contrário do que a córnea faz. Em óculos, o eixo tem de estar montado ao grau certo — daí a montagem ser mais criteriosa. Em lentes de contacto existem tóricas, que precisam de se manter orientadas no olho e por isso levam adaptação mais cuidada. Consegue-se quase sempre.

Presbiopia

O cristalino endurece com a idade e deixa de conseguir engrossar para focar ao perto.
O que se sente
  • Afastar o telemóvel ou o jornal para conseguir ler
  • Precisar de mais luz do que antes para a mesma letra
  • Ler bem no início e pior ao fim de dez minutos
  • Custar a passar do longe para o perto, e ao contrário

Esta não é um defeito nem se herda: acontece a toda a gente. O cristalino passa a vida a mudar de forma para focar a distâncias diferentes, e a partir dos quarenta e poucos anos vai perdendo elasticidade. Deixa de conseguir engrossar o suficiente, e o perto sai desfocado.

Costuma dar-se por ela de repente, mas vinha a instalar-se há anos — o que muda de um dia para o outro é o braço deixar de ser comprido que chegue.

Como se corrige

Depende do que a pessoa faz com os olhos durante o dia, e é por isso que a conversa importa tanto como a graduação:

Unifocais para perto — só para ler. Simples e baratas, mas há que tirá-las para andar.
Bifocais — longe em cima, perto em baixo, com a risca à vista e sem distância intermédia.
Progressivas — todas as distâncias na mesma lente, sem risca, com o computador incluído no meio. É a solução que a maior parte das pessoas acaba por escolher, e leva alguns dias de adaptação.
Lentes de contacto multifocais — para quem não quer óculos ao perto.

Meça a sua visão ao perto a 40 cm, que é a distância a que isto se nota primeiro.

Condições a vigiar

Estas não são erros refractivos e não se resolvem com uma graduação nova. Algumas tratam-se na óptica, outras são de médico — e a diferença entre uma coisa e outra é justamente o que uma consulta serve para dizer. A maior parte delas não dói e não avisa, e é por isso que a revisão de rotina existe.

Muito comum

Olho seco

Ardor, areia nos olhos, vermelhidão ao fim do dia — e, curiosamente, lacrimejar, que é o olho a compensar. Ecrãs, ar condicionado e lentes de contacto pioram tudo, porque em frente a um ecrã pestaneja-se menos de metade das vezes.

Avalia-se em loja, e resolve-se muitas vezes com lágrimas artificiais adequadas e mudanças de hábito. Se não ceder, é de encaminhar.

A partir dos 60

Cataratas

O cristalino vai ficando opaco. A visão embacia como através de um vidro sujo, as cores perdem força e os faróis à noite encandeiam muito mais.

Não é preciso esperar que "amadureça" — essa ideia vem de uma cirurgia que já não se faz assim. Opera-se quando começa a atrapalhar a vida. Nós detectamos e encaminhamos para oftalmologia.

Silencioso

Glaucoma

Lesão do nervo óptico, quase sempre associada a pressão elevada dentro do olho. Come a visão pelas periferias e sem sintoma nenhum: quando a pessoa dá por ela, já perdeu campo visual que não volta.

É o melhor argumento a favor da revisão regular, sobretudo com casos na família. Diagnóstico e tratamento são de oftalmologia.

Depois dos 50

Degeneração macular

Afecta a mácula, a zona central da retina. As linhas rectas começam a parecer tortas ou onduladas, e aparece uma mancha a meio do que se olha — a visão de lado mantém-se.

Fumar e a exposição acumulada ao ultravioleta contam. Detecta-se cedo com uma grelha simples — a grelha de Amsler está aqui — e é caso para oftalmologia sem demora.

Infantil

Ambliopia e estrabismo

O "olho preguiçoso" acontece quando o cérebro aprende a ignorar um dos olhos, muitas vezes porque vê pior ou porque está desalinhado. A janela para tratar é curta e fecha-se por volta dos sete ou oito anos.

É a razão para a primeira avaliação ser antes da escola. Fazemos terapia visual e trabalhamos em articulação com oftalmologia quando é preciso.

Com diabetes

Retinopatia diabética

A diabetes danifica os pequenos vasos da retina, e faz isso durante anos sem dar sinal. Quando a visão baixa, a lesão já vai adiantada.

Quem tem diabetes deve fazer rastreio anual do fundo do olho, tenha ou não queixas. É das poucas coisas em que a data no calendário vale mais do que o sintoma.

Jovens adultos

Queratocone

A córnea vai afinando e ganha forma de cone, o que distorce a visão de maneira que os óculos deixam de conseguir corrigir. Suspeita-se dele quando o astigmatismo muda depressa e muito, graduação após graduação.

Se aparecer esse padrão, encaminhamos para consulta de oftalmologia — o diagnóstico e o tratamento são de lá.

Quem trabalha com ecrãs

Fadiga visual digital

Não é doença nem estraga os olhos, mas dá cabo dos dias: olhos pesados, visão a embaciar ao fim da tarde, dores de cabeça, pescoço tenso.

Resolve-se com o que já se sabe e ninguém faz — a regra 20-20-20, luz decente, o ecrã sem janela atrás. E, se houver graduação por corrigir, corrigi-la: metade destas queixas é hipermetropia ou astigmatismo disfarçados.

Não esperar

Estes sinais pedem observação no próprio dia

  • Perda de visão súbita, num olho ou nos dois
  • Uma cortina ou sombra a tapar parte do campo visual
  • Flashes de luz, ou um aumento repentino de moscas volantes
  • Dor intensa no olho, com vermelhidão e sensibilidade à luz
  • Visão dupla que apareceu de repente
  • Traumatismo, ou qualquer produto químico salpicado no olho

Nestes casos não marque consulta de optometria: vá a uma urgência de oftalmologia.

Esta página explica, não diagnostica. Serve para reconhecer o que sente e saber a quem se dirigir. O que ninguém consegue daqui é dizer-lhe qual é a sua graduação, nem descartar o que quer que seja — isso mede-se com equipamento, numa consulta.

Se alguma coisa aqui lhe soou familiar, fale connosco ou passe pela loja. Se preferir começar por medir, há testes de visão calibrados nesta casa. Também respondemos às perguntas mais frequentes, e explicamos as comparticipações e os protocolos se a dúvida for essa.

Ler sobre isto não substitui medir.

Uma avaliação leva menos tempo do que se pensa, e é a única maneira de saber o que se passa consigo.

WhatsApp